Na primeira vez que ficamos, ele me convidou para dormir na casa dele e disse que faria café da manhã pra mim, no dia seguinte. Fiquei tão assustada com aquilo que saí correndo, no meio da madrugada, e fui dormir no aconchego da minha cama, no quentinho do meu lar, onde não havia ninguém pra me fazer promessas que começariam com cafés da manhã e poderiam terminar, sei lá, com sentimentos mais sérios. Eu, que sempre afugentei pessoas com os meus sentimentos e profundidades, estava sendo afugentada por um convite de dormir abraçadinhos e tomar cafezinho da manhã juntos. Aquilo era demais para a minha pessoa, pensei logo: Charlatão ou o último-romântico-da-face-da-terra. E nenhuma dessas duas opções me interessaram.
Quatro dias depois, recebi um telefonema dele, me chamando para almoçar. Claro que sim, você pode me buscar aqui na porta do meu local de trabalho, mas estou fazendo dieta, escolha um lugar adequado. Não cortei o mal pela raiz, mal sabia eu que estava brincando com fogo. Fomos almoçar como se fôssemos dois colegas de trabalho. Não me lembro direito, mas acho que ele descansou a mão direita sobre a minha coxa ou segurou minha mão, alguma coisa assim que só românticos ou galanteadores-charlatões sabem fazer. Eu não sabia bem o que ele era, mas não me importava muito, eu só estava brincando, encarando a personagem eu-aceito-seu-romantismo-sem-me-apaixonar-por-você. E eu me lembro de fazer com que ele desse uma mini-volta pela cidade para buscar um remédio na farmácia homeopática para mim, pensei comigo mesma, já que está tão prestativo, vou me aproveitar dele, até porque morro de preguiça de andar por aquelas entrequadras engarrafadas sozinha. Ele errou o caminho algumas vezes e disse: É bom que eu passo mais tempo com você. Pronto, meu sininho-interno-identificador-de-charlatão tocou. Eu ri sem graça, minha Renata romântica adorou ouvir aquilo, a bichinha até acordou de seu sono profundo e começou a pular dentro de mim, mas claro que eu fechei a porta na cara dela e não deixei aquilo me afetar.
Não me lembro bem da ordem cronológica, mas acredito que o nosso próximo encontro foi um jantar na casa dele. Fui ao shopping fazer compras, afinal adoro inventar novos motivos para isso. Cheguei linda e perfumada no apartamento dele e o encontrei vestindo uma camisa com a gola em V, um escapulário que me chamou a atenção desde então, calça jeans e uma sandália de couro. Ah, ele começou a me ganhar ali, naquele dia. Abriu um vinho, fazendo comentários de homem interessante. Sentamo-nos na varanda com nossas taças de vinho e conversamos. E, a partir de então, se o resto da vida se resumisse àquela sentadinha na varanda, eu não acharia ruim. Ele não sabia, mas eu sempre fui uma apreciadora de varandas. É bobo, mas importante. Depois ele revelou que não tinha feito o jantar e sim comprado e o prato era Ravióli (eu acho, porque não entendo de massas). Bom, ele não sabe até hoje, mas eu não comia massas há muitos anos, desde que meus pais saíram de casa e eu e minha irmã passamos a morar sozinhas, nossas refeições se resumiam a massas de todos os tipo de molhos possíveis e imagináveis, então eu havia enjoado até da palavra m-a-s-s-a. Resolvi não tocar no assunto e pensei que a combinação era realmente perfeita e ele estava se esforçando, então foi aí que comi um ótimo ravióli, acompanhado de um bom vinho e, hum, talvez uma boa companhia (é claro que meus espinhos internos estavam engatados na minha epiderme para furá-lo a qualquer momento, eu não podia dar o braço a torcer a mim mesma que eu estava gostando de um jantar a dois no apartamento de um homem interessante, era demais pra mim). Nessa noite, eu dormi lá.
No outro dia, ele veio me buscar em casa, jantamos no lounge do meu condomínio, uma saladinha maravilhosa. Na hora de pagar, eu me ofereci, afinal ele já tinha pagado um almoço e um jantar, era a minha vez, eu não gosto de ter homens me bancando, pensei. Ele disse que perguntaria para a garçonete, se ela dissesse que eu poderia pagar, então eu pagaria. Mas eu conhecia a garçonete, a Lili, e, como eu esperava, ela disse alguma coisa que me impediu de pagar a conta. E foi quando ele começou com a história de que o primeiro encontro o homem paga e a mulher paga os seguintes. Ele também é engraçado, pensei. E ele usou essa frase até quarta-feira passada, quando decidi assistir jogo de futebol amigavelmente (auto-sabotagem) com ele, quase seis meses depois, ao pagar a salada delivery da zimbrus.
Depois do jantar, fomos ao cinema. Eu escolhi o filme e andamos de mãos dadas e abraçadinhos e beijinho vem, beijinho vai, ele me chama para tomar vinho na casa dele. Nessa hora, tudo o que eu queria era dizer sim, quero tomar vinho, quero tanta coisa com você. Mas eu só disse que iria à boate com uma amiga e foi então que ele me levou à porta da boate e se despediu de mim como um bom rapaz que deixa a garota se divertir. Ali, eu pensei que ele não fizesse o tipo ciumento (claro que não tínhamos aproximação suficiente para sentirmos ciúmes um do outro, mas sei lá). Eu estava enganada.
Desde então, eu me desfiz dos casinhos que eu tinha. E esses outros caras me tratavam bem também, era um jantar por dia, era alguém que comprava lentes de contato e vinha me trazer às 7 da manhã porque as minhas tinham rasgado, era vinho na beira do lago, mas, por causa dele – o novembro, o malino – eu perdi o interesse pelos outros, foi aí que eu comecei a ver sentido na letra da música “depois de você, os outros são os outros e só”. E todos perceberam que eu estava mudada, antes que eu terminasse com os outros, eles diziam “você está namorando, Renata? Você está muito diferente”. E eu dizia que não estava namorando, mas que algo em mim, que não havia acendido nunca, resolvera se acender. E que eu não conseguia mais ficar com outros. Eles se comoveram com a beleza daquilo tudo, alguns morreram de ciúmes e me pediram em namoro imediatamente. Mas eles sabiam que haviam me perdido pra sempre. Estava escrito no meu olhar.
Com ele eu consigo dormir abraçadinha a noite inteira, coisa que eu nunca consegui com ninguém nessa vida, com ele eu consigo dividir a cama, com ele eu assisto ao jogo de futebol (coisa que eu nunca fiz com homem nenhum, fora meu pai), com ele eu finjo ser só amiga para não ter que ficar distante.
Eu gosto dele, da maneira que ele me faz sentir mulher; que me faz sentir querida quando diz coisas como “você me é especial e eu quero te segurar com os dois braços”; que ele cuida de mim quando eu estou passando mal pelos meus excessos alcóolicos; como ele me dá conselhos sobre não ficar respondendo “não sei” sempre que me perguntam algo; quando ele me manda mensagem com uma palavra só: linda; como ele me olha nos olhos e me diz verdades profundas, no escuro do quarto dele; quando ele desce pra buscar minha mala no meu carro, enquanto eu tomo banho. Eu gosto de tudo nele e eu não sei onde isso vai dar, eu só sei que até sexta-feira, à tarde, estava sendo bom e eu só queria viver esse bom, sem cobrar nada, sem criar expectativas demais. Eu só queria aceitar essa felicidade que me bateu à porta e deixá-la entrar e parar de lutar contra.
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