Era fim de tarde quando comecei a correr na pista de atletismo. Havia um senhor andando por ali com um olhar de quem procura algo, só depois percebi que ele estava observando o movimento do ar – o vento. Fiquei intrigada com sua maneira de lançar seu bumerangue e obtê-lo de volta como quem sabe exatamente o que faz, como quem calcula cada movimento. Enquanto corria e meu fôlego se esvaía, pensei que, talvez, eu devesse calcular meus movimentos, observar o movimento da vida para saber que, quando eu lançar um bumerangue, ele voltará para as minhas mãos, entretanto eu vivo cheia de espontaneidade, não calculo minhas atitudes, vou, apenas, vivendo, fazendo o que me dá vontade. Pensei que esta, talvez, não fosse uma atitude inteligente. Engraçado como aprendemos uma lição de vida de uma maneira tão inesperada, correndo em uma pista de atletismo, num sábado de carnaval.
Meu objetivo era completar quatro quilômetros em vinte e um minutos, seriam dez longas voltas naquela pista. Enquanto seguia firme em meu propósito, observei o horizonte, onde havia um pedaço do Lago Paranoá, algumas mansões em frente a ele e, mais adiante, nuvens desenhadas no céu que me davam uma enorme sensação de paz.
Um vento refrescante batia em meu rosto à medida que eu avançava. Desejei, naqueles momentos, sair flutuando, pisando no ar em direção a lugar-nenhum.
Do outro lado da pista, Ludmilla avançava rapidamente com seus passos largos, tive uma imagem em câmera lenta de sua movimentação. Quando vejo horizontes e sinto ventos frescos e olho nuvens desenhadas no céu, vivo como se eu fizesse parte de uma cena de filme e assim o era.
Outro rapaz chegou para se juntar a nós na corrida e os quatro quilômetros que não chegavam nunca, comecei a hiperventilar, mas não desisti. Ultimamente, tenho eliminado de mim a vontade de desistir, insisto em continuar, mesmo que seja com velocidade menor, mesmo que o vento esteja contrário a mim, mesmo que eu tenha, muitas vezes, a sensação de que só tenho perdido. E quando eu olhava pro chão, me dava vontade de desistir, mas, logo depois, eu me lembrava do horizonte e fixava meus olhos nele, então eu começava a voar, a pisar o ar, a saltitar rapidamente sobre a pista.
Quando completei minha décima volta e comecei a caminhar, tive a sensação de que havia perdido, ali mesmo, todo o fôlego de vida que ainda restava em mim, mas, logo depois, recebi um fôlego novinho em folha. Achei linda a lição que aprendi com uma simples corrida: Você está quase morrendo e perdendo todo o seu fôlego de vida, mas, então, de repente, recebe um novo fôlego, uma nova vida, um novo ânimo de viver como se estivesse recebendo da vida um prêmio pela sua persistência, pela sua determinação em, simplesmente, continuar.
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