Vem assim de repente, aos sábados à tarde, geralmente. Um medo de mundo, um pavor daquela toalha pendurada ali no suporte, um pavor sem sentido. Um choro seguido de outro e de outro e de outro. E choro e paro e começo denovo e paro denovo. Unhas vermelhas com as pontinhas saindo, é justo, pois hoje faz uma semana que as pintei. Não consigo encontrar a música certa para esse momento, então coloco Maria Gadu, não sei quem é, mas foi a única que consegui colocar rapidamente. Há momentos que pedem desesperadamente uma música. Agora, por exemplo. Aumento o volume. Choro de novo, mas minha vontade é vomitar porque vomitar é mais dramático, mais drástico. Alguns momentos pedem decisões drásticas. Agora, por exemplo. Abro a geladeira e vejo a caixinha de morangos, as frutas na fruteira, as barrinhas de cereal com chocolate e eu queria sem chocolate, mas não pude dizer isso pra minha mãe porque ela decidiu não falar mais comigo. E eu sou dramática e ninguém pode ficar sem falar comigo e muito menos a pessoa mais importante da minha vida. Então eu decido, em plena tarde de sábado, que eu não sou uma pessoa feita para viver e relacionar-se com outras, eu sou o tipo de pessoa que fica só, porque eu não sei lidar com as pessoas. Decido, então, afastar os contatos e os relacionamentos, tudo. Só, eu sou melhor. Só, eu permito que os outros sejam melhores. Decidi isso sentada no meio fio em frente ao prédio, esperando alguém chegar com a chave que nunca chegava. E lembrei de você me contando que já tinha ficado em coma, agora que eu fui entender a gravidade do que você me contou aquele dia trágico e mágico, meu coração ficou apertado, tão apertado e me deu uma vontade absurdamente grande de te abraçar e não te soltar mais. Viu? Por mais que eu me obrigue a não pensar em você, você está sempre rondando meus pensamentos. Até quando penso em solidão e decido solidão, vem você querer me fazer desistir dos meus impulsos raivosos-de-mundo.Vá embora, mas não se esqueça de ficar!
Um comentário:
Escrevi isso há algum tempo atrás e, enquanto escrevia, tive meu primeiro contato com a Maria Gadu. Engraçado.
Fui reler o texto tendo certeza que havia sido escrito pela Tati Bernardi. Depois, ao final, percebi que era meu.
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